Escola do interior desenvolve projeto de proteção de nascente com plantio de árvores nativas

Publicado em 20 de dezembro de 2018
    As atividades do projeto trazem contribuições importantes para escola e a comunidade

A água é apontada como um recurso natural de altíssimo valor econômico, estratégico e social, já que todos os setores de atividade humana necessitam dela para desempenhar suas funções. Tendo em vista a vital importância da água de boa qualidade e a possibilidade de ocorrer a sua escassez, tornou-se uma das maiores preocupações de especialistas e autoridades no assunto.

As bacias, principalmente as de cabeceiras, devem ser tratadas como algo de mais importante que existe em uma propriedade, pois são elas as responsáveis pela existência das nascentes que, por sua vez, são fontes de água valorosas para a humanidade e a escola tem o potencial de servir como uma ferramenta para despertar nas crianças e adolescentes a satisfação de cuidar do meio ambiente.

Uma experiência inovadora realizada com alunos do CMEA Agostinho Batista Veloso, no interior de Vila Pavão, desenvolvida pela professora de Língua Portuguesa e Inglesa Diane Cristina Nogueira Zon,  tem chamado a atenção pela sua simplicidade  e praticidade.

Para dar mais detalhes da experiência conversamos com a professora. Ela é filha de campesinos da região de São Roque do Canaã, ES, mora atualmente em Nova Venécia e juntamente com o marido e um casal de filhos, curte as atividades agrícolas em uma pequena propriedade rural em Vila Pavão, ES.

O que essa propriedade rural tem a ver com o projeto que você vem desenvolvendo na Escola onde trabalha?

“Nessa propriedade, que carinhosamente chamamos de Sítio “Nogueira-Zon das Boas Águas”, nós conseguimos recuperar uma nascente. Quando compramos a propriedade, percebemos que estava precisando de alguns cuidados. Nós limpamos da melhor forma possível, plantamos árvores nativas em seu entorno, fizemos caixas secas, etc. A vegetação natural foi crescendo ao seu redor e isso foi aumentando a nossa esperança de que ela realmente reviveria e também foi aumentando a nossa determinação em continuar zelando por aquela preciosidade. Hoje, dois anos depois, nós podemos dizer que ela abastece as necessidades básicas da propriedade e ainda abastece o córrego São Sebastião e também segue para a propriedade do vizinho. Eu acredito que ações similares, que são bem simples e de baixo custo, poderiam ser feitas em uma grande maioria de propriedades rurais do nosso Estado. A soma dessas pequenas ações iria trazer um efeito incrível para nossos pequenos e grandes rios. Sem contar que o nosso Estado seria bem mais verde, bem mais vegetado do que está atualmente.”

E como essa atividade de recuperação e proteção de nascentes de água está relacionada com a Escola onde você trabalha e também com a UFES?

“Na realidade, conseguimos “unir o útil ao agradável”, como se diz no popular. Por um lado, a parte útil foi que surgiu uma oportunidade de eu fazer o Curso de Extensão Escola da Terra Capixaba, oferecido pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Esse curso de extensão ocorre em parceria da UFES com a SECADI/MEC. A SECADI é a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, do Ministério da Educação e Cultura. E eu tive a honra de ter a colaboração direta da tutora desse curso a Professora Vanilda Tressmann Kruger, da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de Vila Pavão – ES. Esse curso objetiva contribuir na formação de professores de classes multisseriadas de vários municípios do estado do Espírito Santo. O tema desse curso para este ano de 2018 foi “Trabalho e cultivo da terra, cultivo das águas, memórias, culturas e línguas, saúde, alimentação”, entre outros temas norteadores do processo produtivo campesino. Por outro lado, a parte agradável foi que já havia a ideia de um projeto intitulado “Água é Vida”, na escola CMEA Agostinho Batista Veloso, cuja Diretora é a professora Marcelia da Silva Ferreira Souza. O Projeto “Água é Vida” ainda não havia sido realizado e, com a permissão e o apoio da Diretora Marcelia, ele foi adaptado e então começou a ser executado, juntamente com os alunos de várias séries da Escola. Os alunos estiveram muito dispostos e eufóricos em participar das atividades do projeto. Nós visitamos três propriedades do entorno da Escola com possíveis nascentes para proteção. A partir das visitas, nós conseguimos uma parceria, junto à proprietária Cássia Veloso, para iniciar as atividades do projeto. Eu procurei orientar os alunos na participação das atividades do projeto e a manter o entusiasmo. Os alunos fizeram as primeiras 120 mudas de espécies nativas (Jatobá, Cramará ou Cascudeiro, Jenipapo, Farinha Seca, Pata de Vaca e Ipê Amarelo) com sementes trazidas por eles mesmos e por alguns professores. Essas primeiras mudas produzidas na própria Escola atualmente ainda estão muito jovens e servirão para substituição se alguma muda morrer. O primeiro plantio ao redor da nascente ocorreu no dia 27 de novembro de 2018. As primeiras 70 mudas de árvores nativas, já crescidas e prontas para o plantio, foram doadas pelo viveiro da Prefeitura de São Roque do Canaã – ES.”

De onde foi que surgiu essa energia de trabalhar ideias e projetos desse tipo?

“A origem de minha família, a minha origem. Existe uma imensa satisfação em estar em contato com o Meio Ambiente, com a Natureza e com o Campo. Eu tenho plena certeza que há um grande benefício direto para as pessoas que lidam com o ambiente rural, onde a natureza seja preservada ou recuperada. E há um prazer muito grande em trabalhar para promover a recuperação da vegetação nativa. Ocorre um tipo de energização da pessoa que plantou algumas árvores e agora pode observar que elas estão ali crescendo saudáveis.”

Por que você achou que esse tipo de projeto seria bom para a escola?

“Porque tem o potencial de servir como uma ferramenta para a Escola na tarefa de despertar nas crianças e adolescentes a satisfação de cuidar da terra. Com um pouco de orientação e incentivo aos alunos da Escola eles poderão aprender a responsabilizar-se pelo nosso Meio Ambiente. Cuidar do Meio Ambiente é uma forma de proporcionar o bem para todos nós seres humanos. Muitas pessoas ainda vão precisar entender que proteger, recuperar e recuperar as nascentes é a forma de garantir água para as atividades humanas das próximas gerações. Ninguém melhor que os jovens para essa tarefa e nada melhor do que a Escola para ajudar nesse despertar. A educação pode contribuir grandemente para que os alunos de hoje sejam os protetores das nascentes no futuro próximo. Afinal, sem água, será impossível viver!”

Qual seria a importância deste projeto para os alunos?

“Eu tenho a impressão que o projeto ajudou a encorajar os alunos a atentarem melhor para o Meio Ambiente. Eu analiso a boa participação dos alunos como sendo a possibilidade de virem a cuidar melhor do nosso planeta. A aprendizagem de algo tão importante quanto cuidar da água, nossa fonte de vida, torna-se fundamental para nossa própria sobrevivência. Com isso, os educandos podem levar essas ideias para as suas casas e podem influir no aprendizado de seus pais e demais familiares. Em breve, poderão praticar essas atividades em suas próprias terras, juntamente com suas famílias, amigos e vizinhos. Vários desses discentes atuarão como multiplicadores dessas ações e levarão esse aprendizado como uma vantagem durante toda a sua vida.”

O que tem a ver esse projeto ambiental com o aprimoramento das suas aulas, com a continuidade dos seus estudos e treinamentos mais avançados na sua profissão?

“As atividades desse projeto trazem contribuições diretas e indiretas para melhorias em aulas práticas ou teóricas. A experiência com esse projeto contribuiu expandindo o meu próprio conhecimento. Eu precisei buscar novas informações e sintetizá-las na forma de explicações simples para possibilitar que os alunos ficassem um pouco mais conscientes de aspectos do Meio Ambiente. Eu acredito que as práticas proporcionadas pela execução das atividades do projeto foram verdadeiras aulas práticas de vida. Os aprendizados tornaram os alunos um pouco mais aptos a executarem atividades novas em suas vidas, como foi o caso de visitar nascentes e de plantar mudas de árvores. Além disso, o acompanhamento do crescimento das mudas vai ajudar os alunos a terem uma ideia de planejamento e acompanhamento de suas metas da vida real. Eu espero que toda essa experiência tenha contribuído com os alunos no aprendizado de novas formas de interpretar suas ações, conforme as oportunidades forem surgindo. De minha parte, eu tenho interesse em continuar participando de projetos como esse e eu continuarei buscando formas de obter mais treinamento e mais conhecimento para aprender novas maneiras de passar adiante as lições aprendidas.”

Por que as mudas de árvores que os alunos prepararam são consideradas próprias para essa região?

“Os alunos levaram seus celulares e fizeram pesquisas em sala de aula sobre as plantas próprias para a região. É muito importante que as plantas escolhidas para um projeto desse tipo sejam aquelas da flora nativa de cada região. No caso do estado do Espírito Santo, as espécies vegetais pertencem ao Bioma Mata Atlântica. A partir dessas informações, os alunos souberam de quais plantas iriam obter as sementes para trazer e preparar as mudas.”

Professora Diane, teria algo a acrescentar?

“Após o recesso escolar, temos planos de voltar no local onde foi realizado o plantio no dia 27/11/2018. Iremos verificar como está o crescimento inicial daquelas primeiras mudas plantadas. Planejamos fazer o replantio, se for o caso, e acompanhar o crescimento das plantas com a frequência que for possível.”

Área de três hectares onde se encontra a nascente de água. O plano é dar continuidade às atividades de plantio de novas mudas para que essa área de proteção seja completamente reflorestada. Essas atividades futuras serão realizadas passo a passo, com a participação dos alunos, quando as aulas reiniciarem.

Professora Diane com alguns de seus alunos e contribuição da professora Hérica, da Educação Infantil, executando o plantio das primeiras mudas nativas no entorno da nascente.

Parceiros de alguns trabalhos em grupo durante o Curso de Extensão Escola da Terra Capixaba, oferecido pela UFES. Da esquerda para direita: Claudilene Cesconeto Comper, Diane Cristina Nogueira Zon, Vanilda Tressmann Kruger (tutora do curso), Bethânia Ferrari e André Felipe de Macedo.

A Parceria para a execução do projeto foi realizada com os proprietários da terra Cassia Maria Veloso e Deustidi Costa Longa (ao fundo). Da esquerda para direita: aluno da escola, a professora Diane Cristina Nogueira Zon, o colaborador Allender Dona Paixão e a diretora escolar Marcelia Ferreira Souza.

 


  VOLTAR
  IMPRIMIR
  PAGINA INICIAL
COMPARTILHE ESTA PÁGINA:

FAÇA SEU COMENTÁRIO

intranet

Rua Travessa Pavão, nº 80, Centro, 29.843-000 - (27) 3753-1001 / (27) 3753-1196 / (27) 3753-1195 / (27) 3753-1022
Horário de Expediente: Seg - Qui, 07:00 às 11:00 e 13:00 às 17:00 | Sex, 07:00 às 11:00 e 13:00 às 16:00